Ser professor é não deixar de ser aluno
Ana Paula Silva (Católica Porto Educação)
A relação pedagógica é uma relação de dois sentidos. É uma relação dialética professor - aluno.
Esta “inter-relação” permite construir um ambiente de aprendizagem grávido de consequências cognitivas: dá-nos o conhecimento do que o outro conhece mas sobretudo pistas para o conhecer.
Ser professor passa pela exigência de não abdicar desta condição de aprendente. Estar aberto ao muito que ainda precisamos de saber. Uma espécie de humildade socrática profissional que parte da identificação não das certezas (“quem ousa dizer na nossa profissão que nunca tem dúvidas e raramente se engana?”) mas, dos enigmas quotidianos que nos recentram no essencial: como resolver aquele novo problema pedagógico que nos desafia?
Esta perspetiva generosa da docência deve levar a um exercício intelectual, cognitivo, catártico que é fértil de aprendizagem: colocar-me no lugar do outro. No caso do professor, tentar perceber na resolução desses problemas o lado do aluno. Ver a realidade através dos seus olhos. Podemos estar em completo desacordo com ela, mas (re) conhecê-la ajuda muito a compreender algumas atitudes, comportamentos e até desempenhos que sem esta tentativa são difíceis de desconstruir e por isso de compreender.
Estas é uma das muitas razões pelas quais a formação contínua dos professores é um instrumento de aperfeiçoamento como profissional e até como pessoa.
(Voltar a) estar do lado de lá de uma relação de aprendizagem, trocar o palco pela “carteira”, ensina muito. Sobretudo a valorizar algumas coisas que todos já sentimos e tínhamos esquecido (como eu olho para o formador, como caricaturo a sua atuação, como me deixo envolver pela empatia do seu discurso ou como, na falta desta, me distancio, me desconcentro).
Numa carteira de sala de aula o mundo pode parecer muito pequeno ou infinito. Podemos descobrir os nossos limites ou desafiá-los. Parte da diferença está em quem está no lado de lá. De pé. Como um pelourinho ou como uma seta. E é esta diferença que faz a diferença. Estar no papel do aluno mostra--nos como escolher que tipo de professor queremos ser. E se já sabemos, então sentimo-nos, ainda, mais privilegiados: recordamos porque fizemos essa escolha a e gratificamo-nos por ela.
Embora, a minha perceção de formação contínua de professores não constitua uma relação clássica do binómio- quem ensina e quem aprende - mas uma relação dinâmica de comunidade aprendente, podemos distinguir nela fases de uma relação pedagógica que possibilitam a analogia. O formando acaba por ter dois estatutos que interagem proficuamente: o estatuto latente de professor e um estatuto ativo de aprendiz. A interação dialética destes estatutos, em alturas estratégicas do desenvolvimento profissional podem levar a momentos de reflexão e questionamento que podem reacender vocações, interesse, motivação. A profissão docente não pode correr o risco de se blindar numa esfera cristalizada de uma arquitetura cujos alicerces, à falta de manutenção, vão degradando com o tempo.
Mas não é só com conhecimento científico que devemos reforçar esses alicerces. A formação continua não deve limitar-se ao campo do saber em que o professor se especializou. É também fundamental consolida-lo e conferir-lhe sentido com a pedagogia, a comunicação, a psicologia.
Ao voltar a estar do lado de lá da relação pedagógica temos a oportunidade de ”ver-nos nos olhos do outro”. E a nossa exigência legitima a exigência dos nossos alunos. Até os direitos esquecidos e a ação decisória sobre os pequenos pecados, que agora revindicamos e que, por vezes, punimos sem pesar aos alunos, são aprendizagem.
O questionamento sobre indicações de tarefas avaliativas, formas e tipos de avaliação, o investimento no trabalho de retaguarda e a participação, a relação de tudo isto com critérios e resultados da avaliação, agora vistos na perspetiva não de quem avalia mas de quem é avaliado, podem constituir momentos poderosos de aprendizagem.
É esta contínua dupla personalidade aprendente que nos permite perceber a abrangência reflexiva da adaptação à profissão da afirmação de Albert Einstein que caricatura a incompetência profissional naquele que “ fazendo sempre as coisas da mesma mameira, espera resultados diferentes.”
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